Paralímpico vs. Para-olímpico vs. Paraolímpico
Tendo sido solicitado, pelo Instituto do Desporto de Portugal, o
parecer da Associação de Informação Terminológica, AiT, relativamente
à forma de grafar o termo paralímpico / para-olímpico
/ paraolímpico, atestou-se o seguinte:
1. Paralímpico / para-olímpico / paraolímpico
pode corresponder em português seja a um adjectivo, tal como em
“Comité Paraolímpico Português”, seja a um nome, usado, nesse
caso, no plural, tal como “os Paraolímpicos” em vez de “os Jogos
Paraolímpicos”.
Paralímpico ou paraolímpico / para-olímpico?
2. Em português, o termo em questão resulta de um empréstimo
do termo inglês paralympics (nome), do qual se terá construído
também nessa língua um adjectivo, paralympic. De acordo com o
Oxford English Dictionary, paralympics constitui uma amálgama,
tendo sido construído com base no cruzamento de para(plegic)
+ (o)lympics. O termo tem, portanto, na sua origem a forma
paralympics.
3. Ao serem integradas em português (e noutras línguas), as palavras
provenientes de outras línguas sofrem sempre adaptações, que podem ser
conscientes ou inconscientes, e que podem consistir na simples alteração
fonética da palavra, ou na sua adaptação morfológica, entre outras.
Especialmente quando as palavras importadas de outras línguas constituem
termos científicos e/ou técnicos, esses termos deveriam ser sempre alvo
de intervenção consciente de alguma(s) entidade(s), de modo a não introduzir
na língua termos que sejam violadores da sua estrutura (nomeadamente,
morfológica) e que, por isso mesmo, sejam opacos para os seus utilizadores.
A busca da transparência deve, portanto, nortear todos aqueles que intervêm
na integração consciente de empréstimos e na neologia planificada.
4. Apesar de o processo de amalgamação não ser um processo muito
produtivo ao longo da história da língua portuguesa, a verdade é que,
nos últimos anos, tem surgido nesta língua um número crescente de amálgamas,
mesmo em terminologias científicas e técnicas, resultantes, sobretudo,
da importação de outras línguas, de termos construídos por este processo
mas também de construção autóctone. Embora não existam muitos estudos
sobre este processo de construção de palavras para a língua portuguesa,
é possível, no entanto, detectar algumas tendências: a amálgama pode
ser construída não apenas com sílabas iniciais da primeira palavra e
sílabas finais da segunda (ex.: infor(mação) + (auto)mática),
mas também com sílabas iniciais da primeira palavra que se juntam à
segunda palavra, que mantém a sua integridade (ex.: tele(fone)
+ móvel ou info(rmação) + alfabetização).
Será mais consentâneo com a estrutura da língua portuguesa, portanto,
que o termo em causa mantenha a vogal inicial o da palavra
olímpico.
5. Apesar de se ter verificado que a forma paralímpico
tem uma frequência de uso mais elevada do que o termo paraolímpico
(numa consulta a páginas portuguesas de Internet por meio do motor de
pesquisa Google, realizada em 19 de Janeiro de 2005, a forma paralímpico
surgiu 6 050 vezes contra 246 da forma paraolímpico), a verdade
é que paraolímpico se encontra já consagrado pela legislação
portuguesa, no acto de nomear oficialmente o Comité Paraolímpico
Português, facto que não pode deixar de ser tomado em consideração.
6. Dado o que foi dito em 3., do ponto de vista linguístico,
a forma paralímpico é violadora da estrutura do português, não
sendo transparente, pelo que se preconiza a sua substituição por uma
forma em que a palavra olímpico mantenha a sua integridade. Além
disso, no ponto 4., demonstrou-se que a forma paralímpico é também
violadora daquilo que já se encontra consagrado na Lei Portuguesa.
Por tudo isto, desaconselha-se vivamente o uso da forma paralímpico
em documentação oficial e em discurso formal escrito de grande visibilidade.
Para-olímpico ou paraolímpico:
7. Para defender o emprego do hífen na forma paraolímpico,
poderá argumentar que, tendo em conta o Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa, se preconiza o uso do hífen “nas palavras compostas
por justaposição que não contêm formas de ligação e cujos elementos,
de natureza nominal, adjetival, numeral ou verbal, constituem uma unidade
sintagmática e semântica e mantêm acento próprio, podendo dar-se o caso
de o primeiro elemento estar reduzido” (Base XV). Terá sido essa a razão
que levou o lexicógrafo a grafar para-olímpico no Dicionário
da Língua Portuguesa Contemporânea (vulgo, Dicionário da Academia).
8. Dois argumentos, no entanto, podem ser aduzidos contra esta
posição:
a) em primeiro lugar, nos casos apresentados nessa Base XV, todos
os pretensos exemplos de formas reduzidas da primeira palavra são
elementos acentuados graficamente (és-sueste) ou elementos
que terminam em vogal de ligação o (aberto), a saber,
afro-asiático, afro-luso-brasileiro, luso-brasileiro e primo-infeção;
ora, tendo em atenção que o elemento para-, resultante da
truncação de paraplégico, apresenta acento secundário em
relação a olímpico, além de que não apresenta qualquer vogal
de ligação, o (aberto) ou i, poder-se-á argumentar
que este elemento não é da mesma natureza daqueles que figuram como
exemplos na Base XV do Acordo e que, por isso, a obrigatoriedade
do uso do hífen no termo em apreço não é clara;
b) em segundo lugar, ainda seguindo o texto do Acordo, o elemento
para- pode também ser classificado como um “elemento não
autónomo ou falso prefixo, de origem grega e latina” (Base XVI),
não sendo necessário, neste caso, o emprego do hífen em paraolímpico.
9. Dado o facto de o termo paraolímpico vir a ter grande
notoriedade e fazer parte de diferentes denominações de organismos oficiais
com grande visibilidade, é legítimo que, dada a alternativa, se defenda
o emprego de uma forma que, sendo gramatical e transparente (como ficou
demonstrado na primeira parte deste parecer), seja mais curta e de aspecto
gráfico mais simples, pelo que se justifica a grafia do termo sem hífen.
Se aos argumentos apresentados em 8., acrescentarmos, então, os factores
sociolinguístico e pragmático, verificamos que a forma paraolímpico
é preferível à forma equivalente com hífen.
Por tudo o que se apresentou, a AiT recomenda que a forma desejável
para grafar o termo em análise é, sem margem para dúvidas, a forma
paraolímpico.
Margarita Correia
Janeiro de 2005
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